Agressividade na infância, só uma fase ou início da violência?

A agressividade infantil tem sido vista apenas como algo negativo. Mas o que a agressividade representa realmente na vida da criança? O que de fato vem a ser a agressividade?

As primeiras manifestações de agressividade por parte da criança geram no adulto uma ansiedade muito grande. É que o adulto logo relaciona a agressividade com violência. Agressividade e violência são termos que parecem sinônimos, mas o psicólogo Júlio Walz, de Porto Alegre, explica a existência de uma grande diferença: "quando nos referimos à agressividade, falamos de um nível de relação humana onde ainda é possível o diálogo. Na violência, ele não é mais possível, a situação já se encaminha para atitudes extremas", conclui.

Quando a criança começa a ter maior autonomia motora, consegue movimentar-se em função dos seus desejos, ou seja, quando ela quer algo, simplesmente vai e pega, sem se importar com o outro, o resultado disso não é muito bom aos olhos dos pais: mordidas, puxões de cabelo, empurrões, entre outras ações, que para os pais são  demonstrações de pura “agressão física”. Associada a essa interpretação dos pais costuma vir outra: “a única solução é revidar, não vou deixar meu filho apanhar!”

Na realidade, a criança sequer pensa em agredir e revidar. Na maioria das vezes, ela apenas está querendo um determinado objeto e usando a sua combatividade para consegui-lo. É bom prestar atenção nessa palavra – combatividade. Segundo Nereide Tolentino, combatividade “é a canalização positiva da agressividade, a capacidade de orientar a sua força na direção de um determinado objetivo.” Ou seja, esse é um comportamento extremamente positivo quando se pensa na formação de crianças desinibidas, pró-ativas e bem relacionadas.

É importante que a criança aprenda que usar esta sua combatividade, esta sua ainda prematura forma de lutar pelas coisas, não é uma atitude feia, errada, pois retaliações adultas só competem para que em uma  próxima vez ela  iniba sua energia, sua capacidade de luta.

Infelizmente, nossa cultura costuma registrar  com recorrência  que lutar pelas coisas é feio. Mesmo com três, quatro anos, a criança precisa entender o valor de  lutar pelo que acredita e deseja, caso contrário, talvez se revele uma criança marcada pela não combatividade.

Vejamos o ambiente escolar, lugar da socialização secundária, onde como em nenhum outro ambiente a criança é convidada a agir em função dos seus desejos e frustrações. Qual é a reação mais comum quando uma família recebe um filho mordido, arranhado ou com outra marca resultante de uma briga?  Achar que o filho não reage, é sempre passivo, vítima das demais crianças. Será que esse pensamento reflete a realidade? Será que o filho não reagiu mesmo? Ou será que não foi ele mesmo que detonou a rusga?

O que é necessário é compreender e aceitar  que a mordida, a briga pelas coisas, os brados indignados e outros comportamentos agressivos infantis são indicadores de desenvolvimento e vão ser superados por comportamentos esperados socialmente. Lembrar que o que vemos e lemos sobre violência nos meios de comunicação não tem nada a ver com a forma de agir das crianças. O fato é simples: as crianças não sabem se expressar como nós, adultos, sabemos. Na hora que seu desenvolvimento superar as fases oral, egocêntrica e de impulsividade, a criança  naturalmente vai lidar com as situações cotidianas com maior tolerância porque vai ser capaz de usar outra forma de expressão: a palavra.

A agressividade infantil precisa ser encarada de forma positiva. É importante que os comportamentos agressivos sejam direcionados de maneira que se manifestem de forma mais consciente e compreensível. Por isso, a postura inibidora dos adultos não se justifica. Isso não quer dizer que vamos deixar as crianças morder, xingar, bater sem fazer nada. Muito pelo contrário, o adulto vai explicar para as crianças envolvidas em situações de agressão mútua quais sentimentos foram gerados  no outro e em si mesmas (raiva, susto, dor) e demonstrar (verbalmente e fisicamente) quais são os comportamentos esperados para uma convivência saudável.  Mas será que a criança vai entender? Claro que sim, ela não fala, mas já consegue absorver  informações suficientes para nutrir a próxima fase, a da expressão verbal.

Ubirani Pereira de Lucena, psicóloga e assistente de direção do Instituto Tarcísio Bisinotto.