Como ajudar a criança a vencer o medo

O que é medo? Difícil definir, não é! E sentir medo então??? Quase indescritível esta sensação, ainda mais porque antes de você sentir medo vai sentir ansiedade ou vai sentir tudo junto e misturado, e aí, pronto: tchau razão e dá-lhe emoção! O coração dispara, a pupila dilata, a pela fica gelada e é "pernas, pra que te quero!"

A descrição da sensação de medo já é medonha, mas todo o processo de sentir medo deve ser compreendido como uma reação natural do organismo, reativa às situações que podem tornar-se ameaçadoras ao nosso bem. É fato, convivemos com o medo desde o nascimento e por questão de sobrevivência: afinal, é um estado de alerta. .

Os medos vão mudando conforme a criança vai crescendo e para entender melhor como o medo acompanha o desenvolvimento infantil, abaixo uma lista dos medos mais comuns em cada fase:

- Do nascimento até cerca de um ano e meio: medo de estímulos intensos - barulhos estranhos ou altos, luzes intensas, e riscos de quedas. Por volta dos oito meses já sente medo de pessoas estranhas, como o pediatra, por exemplo.

- De um ano e meio até os três anos: medo da água, da areia, de pessoas fantasiadas por mais singela que a fantasia seja (por ex, Papai Noel, Coelho da Páscoa), da escola, da casa dos parentes, do consultório do dentista e do pediatra.

- Dos três aos cinco anos: medo dos personagens dos desenhos animados, de filmes, das fantasias de monstros e fantasmas. É a fase que a criança já consegue simbolizar - fazer de conta - mas não consegue discernir entre o que é real e o que é imaginário. O medo pode se intensificar na hora de dormir se desdobrando no medo do escuro e de dormir sozinho.

- A partir dos 6 anos: medos mais vinculados ao cotidiano, como de doenças, de ladrão, de acidentes, de conflitos entre os pais, do insucesso escolar, de rejeição pelos colegas, de ser esquecido na escola.

Não podemos nos esquecer do medo desencadeado por traumas, que pode aparecer em qualquer idade, como o medo de cachorro depois de levar uma mordida. E existem ainda os medos de situações que as crianças aprendem com os adultos, como o medo do "motorzinho do dentista" ou de entrar no elevador.

Além do que foi listado, deve-se considerar que cada criança é única; por isso, as coisas que assustam as crianças e a idade em que cada medo se manifesta variam muito de criança para criança, e até mesmo de uma cultura ou esfera social para outra.

A falta de medo expõe a criança ao risco e o excesso dele faz com que ela se feche, perdendo o desejo de explorar e descobrir. O ideal é ajudar a criança a identificar o medo que pode ajudá-la e o que só a atrapalha. Resumindo, ela deve aprender a dominar seu medo. Porém, a tarefa não é fácil para os pequenos pois eles não conseguem apurar os fatos como são e têm uma imaginação muito fértil, uma combinação de ingredientes que consegue transformar o uivo do vento no chiado do dragão e a sombra da árvore passando pela janela no dinossauro lá fora.

E aí, como o adulto pode ajudar em situações como essas?

1. jamais ria, ignore ou ridicularize os temores da criança, isso só diminui a confiança para compartilhar o medo. Escute o que a criança tem a dizer, ajude-a a identificar, examinar e enfrentar o medo, com o cuidado de não dar uma conotação de pequenez para a situação. Se o seu filho/aluno tem medo de Lobo Mau, que tal investigar se todos os lobos são maus? Será que existem lobos bons?

2. não esconda a realidade da criança, dizendo, por exemplo, que a injeção não dói. Ajude-a a preparar-se para enfrentar a situação com verdade e honestidade. Ressaltando que a injeção tem um objetivo: evitar ou tratar uma doença;

3. cuidado com o que fala perto da criança. Ela pode aprender a ter medo com você. Evite falar sobre a terrível dor que sentiu quando tratou dos dentes ou sobre o seu pavor de aranhas, por exemplo;

4. não use os medos como ferramentas educativas: "o bicho-papão vem pegar quem não toma banho" ou "a bruxa vai te pegar se você não for para a escola" ou "se você não almoçar vou sair e te deixar aí sozinho". Essas ameaças não educam e só criam uma sensação de ansiedade e sofrimento;

5. diante de um perigo real, optar pela prudência, evitando a superproteção. De fato o cachorro é um animal perigoso, mas não é preciso pular no colo de um adulto se ele está preso.

6. respeito e apoio são importantes, mas não suficientes. Ao lidar com os medos do seu filho é preciso ser coerente. Não se pode dizer que o Lobo Mau não existe quando a criança chora à noite, mas na manhã seguinte falar em alto e bom tom que o mesmo Lobo Mau vem pegá-la se ela não escovar os dentes.

A professora do Infantil 2 no Instituto Tarcísio Bisinotto e mãe do César, de cinco anos, Cleia Fernanda Costa Cândido, tem ampla experiência com crianças de dois a seis anos, e resume muito bem a melhor estratégia para acolher as crianças em seus medos: "permita que elas falem sobre os seus medos e aprendam a conviver com eles, a controlá-los, enfrentá-los, para, enfim, superá-los."

Ao planejar sua rotina com os alunos e com o filho César, Cleia tem a consciência de levar em conta aspectos emocionais e cognitivos. Ela considera como fundamental a exploração dos recursos literários, tanto em casa como no ambiente escolar, eles ajudam a desmistificar alguns medos. Exemplifica com o caso da cigarra, um inseto que poucos conhecem e que é difícil de encontrar em uma área urbana, gerando nas crianças as mais diversas interpretações, algumas recheadas de medo. Nessa situação, ela lançou mão do clássico “A cigarra e a formiga”, que além de apresentar o inseto de forma lúdica e cômica, possibilitou desenvolver conceitos sobre virtudes e valores humanos.

Concluindo, não devemos ter medo de ajudar as crianças a enfrentar seus medos, pois é normal sentir medo e todo mundo tem os seus, inclusive você.


Cleia Fernanda Costa Cândido, pedagoga e professora no Instituto Tarcísio Bisinotto.
Ubirani Pereira de Lucena, psicóloga e assistente de direção no Instituto Tarcísio Bisinotto.