Disgrafia ou " Letra Feia"

A Disgrafia muitas vezes conhecida como “letra feia”, caracteriza-se pelo traçado lento das letras, geralmente ilegíveis. É proveniente de um transtorno de integração visual-motora que afeta a capacidade de escrever ou copiar os grafemas (letras e demais símbolos de um sistema de escrita). Por ser um transtorno ainda pouco conhecido entre pais e educadores, muitos casos ainda passam despercebidos, e a criança costuma ser chamada de “desleixada”. Neste caso, é muito comum ela perder o interesse pela escola e pelos estudos.

De ordem funcional, a disgrafia pode ocorrer em crianças com capacidade intelectual normal, sem ocorrência de transtornos neurológicos, sensoriais, motores e/ou afetivos que venham justificar tal dificuldade. Pode ser motora (atinge a maioria dos disgráficos, sendo a dificuldade em escrever palavras e números corretamente), ou pura (geralmente atinge a criança depois de algum trauma emocional). “A criança tenta chamar a atenção para algum problema através da letra”.

Vale ressaltar que escrever é um processo complexo e envolve o uso de operações cognitivas como percepção visual, auditiva, discriminação tátil e propriocepção (capacidade em reconhecer a localização espacial do corpo, sua posição e orientação, a força exercida pelos músculos e a posição de cada parte do corpo em relação às demais, sem utilizar a visão), pois este ato transforma símbolos (grafemas) em sentimentos, pensamentos e idéias, e faz conexões com vários subsistemas. Desta forma, a propriocepção, o planejamento motor da mão, a coordenação motora fina, percepção visual, a integração bilateral visuomotora, a atenção sustentada e a consciência sensorial dos dedos são algumas das habilidades envolvidas no processo da escrita.

Portanto, a “letra feia pode estar relacionada a fatores intrínsecos (capacidade da criança de produzir caligrafia real), ou fatores extrínsecos relacionados a componentes ambientais ou biomecânicos (movimentos e posições mecânicas realizados pelo corpo).

Dentre os diversos estudos sobre as possíveis causas da disgrafia, está a abordagem do processo de integração do sentido visão com a coordenação do comando cerebral do movimento, ou seja, é difícil para a criança disgráfica monitorar a posição da mão que escreve com a coordenação da direção espacial necessária a grafia, que estão integrados nos movimentos de fixação e alternância da visão. Por isso, é comum vê-las pressionar pesadamente o lápis no ponto do seu foco visual, na tentativa de controlar o traçado durante a escrita, e outras vezes, inclinam a cabeça para tentar ajustar distorções de imagens em seu campo de fixação ocular.

É comum pessoas disgráficas apresentarem características comuns, como a postura gráfica incorreta, deficiência de preensão – movimento que a mão realiza em torno do lápis para segura-lo, e de pressão – força que a mão realiza sobre o lápis durante a escrita, além de ritmo muito lento ou extremamente rápido.

Fator relevante também a ser considerado é a importância do trabalho docente no processo de aquisição da escrita nos anos iniciais da escolarização, pois um ensino inadequado pode favorecer alterações significativas de caligrafia, principalmente quando há cobranças rígidas com exigência de metas muitas vezes inalcançáveis para a etapa de desenvolvimento da criança (qualidade e rapidez na escrita). Outras vezes também, a falta de habilidade do professor em identificar as dificuldades da criança, com intervenção postural adequada e aplicação de exercícios apropriados para prevenir e remediar dificuldades, podem ter efeitos negativos a longo prazo, tanto no que diz respeito a autoestima como no sucesso acadêmico do aluno.

Entre oito e nove anos a letra começa a se firmar, momento em que a disgrafia deve ser tratada. Especialistas (psicopedagogo, psicólogo e outros), família e educadores devem estar atentos para reduzir o impacto que a disgrafia tem na aprendizagem, adaptando e criando estratégias que possam ir ao encontro das necessidades individuais deste aluno, além de intervir e promover oportunidades para melhorar a caligrafia.

CELESTE CHICARELLI - PEDAGOGA
Especialista em Psicopedagogia/Neuropsicologia/Neuroeducação
Screener da Síndrome de Irlen – Tutor Cogmed