A construção de limites através de combinados com as crianças

Impor limites à criança é algo essencial para a estruturação da sua personalidade, mas há muita dificuldade por parte do adulto em saber o momento correto e a forma como conduzir sem ser autoritário ou permissivo demais. São muitos os questionamentos dos pais: será que estou agindo corretamente, o que deve ser negado ou não, será que meu filho que só tem dois anos de idade está entendendo o que estou dizendo? Aliado a estas dúvidas, está o sentimento de culpa de muitos pais, que trabalham por um período longo de tempo e acabam sendo permissivos mais do que gostariam, para compensar o pouco tempo dispensado ao filho ou para ter momentos agradáveis ao invés de conflitos contínuos.

Para começar, a verdade deve ser dita: educar não é tarefa fácil. Como impor limites para uma criança de 2 anos diante de uma birra que consegue desestruturar toda a família? O primeiro passo é: todos se acalmarem, então só conversar depois de se acalmar. Sair de cena na hora da birra, isto se a criança não correr o risco de se machucar, senão deve-se contê-la primeiro. A plateia sempre anima o espetáculo. Logo após de se acalmar, conversar com a criança, relembrando os combinados e verbalizando os sentimentos dela para ela, já que a criança não dá conta de verbalizar. Quando a criança não domina a linguagem oral ou domina, mas não consegue expressar seus sentimentos, ela age. O adulto tem que ensiná-la a verbalizar, substituir a ação (mordida, empurrão, soco, birra) pela fala. Ela deve entender que só conseguirá o que deseja se negociar se expressando verbalmente. Isto é sinal de amadurecimento e demanda tempo e paciência para ser conquistado. Foi falado acima sobre retomar os combinados, mas o que é um combinado? Será que ele realmente é eficaz?

Combinado é aquilo que foi acordado, acertado, contratado, estipulado, firmado. Assim, o combinado entre duas pessoas diz de um pacto que não deve ser descumprido, pois foi feito em comum acordo entre as partes. Todos aqueles que educam, tanto professores quanto pais, podem e devem utilizar os combinados. É primordial fazer combinados do que é a demanda ou dificuldade da criança naquele determinado momento e do que é relevante para família ou educadores. O adulto deve estar atento aos combinados feitos, mas já desnecessários e ter a flexibilidade para deixá-los de lado e propor novos combinados atendendo à dinâmica familiar ou a do grupo de alunos.

Algumas dicas são fundamentais ao se fazer combinados com as crianças:

- Linguagem coerente para uma criança – para que o combinado faça sentido para os pequenos, ele deve ser feito diretamente com a criança ou grupo e utilizando uma linguagem adequada a cada faixa etária. Por exemplo, ao invés de dizer que se deve respeitar o colega, que é algo abstrato, é melhor dizer, que devemos tratar o outro com carinho, esperar a sua vez, ser amigo, etc;

- Utilização de comandos – elaborar os combinados com frases simples e afirmativas. Por exemplo, o combinado é: “Andar devagar” ao invés de “Não pode correr”;

- Não negar tudo – permitir algumas coisas dentro das possibilidades da família ou da escola. Por exemplo: Não pode gritar! Pode sim, mas no pátio ou no playground do prédio.

- Formalizar o combinado – através de técnicas apropriadas, construir este registro juntamente com a criança ou grupo de alunos. Este “contrato” pode ser feito através de pequenos cartazes, móbiles, utilizando fotos da própria criança que ilustrem os combinados, desenhos dela, colagem de figuras associados às frases acordadas. O importante é que este registro lembre para os pequenos o que foi acertado e que fique exposto em local de fácil manuseio para a criança.

- Responsabilidade pelos seus atos – Sempre retomar o combinado quando descumprido e pontuar para a criança que ela não está dando conta de cumprir o que foi firmado. Não castigar, mas a criança deve perder a vez de algo que é significativo para ela. Importante: por um período curto de tempo. Por exemplo, perder a vez de uma brincadeira que gosta.

O combinado é um trunfo que quem educa tem nas mãos. É uma construção, demanda tempo para ser assimilado pela criança, mas a longo prazo, acaba com birras, estresse para ambos os lados, substitui castigos e punições. O combinado auxilia na formação pessoal e social e no desenvolvimento da autonomia da criança, porque através dele ela aprende a se expressar através da fala, a negociar, a lidar com conflitos e a trabalhar os seus próprios limites.

Melissa Fortes de Araújo - psicóloga, psicanalista e coordenadora pedagógica no Instituto Tarcísio Bisinotto - www.institutobisinotto.com.br